"Segundo alguns dos Padres gregos e teólogos ortodoxos, a 'Encarnação' trouxe consigo uma espécie de bênção universal, uma efusão de graça 'crística' mesmo fora da Igreja visível. Para conferir a essa doutrina notável seu pleno alcance e sua universalidade completa, é preciso saber que a 'Encarnação' só pode tocar os não cristãos sob a condição de situar-se fora da história: o 'Eu' é 'encarnado' na separatividade ou na ilusão; Âtmâ é 'encarnado' em Mâyâ; é a entrada em Mâyâ — dando origem a Îshvara — que constitui a 'Encarnação' in divinis, a Encarnação eterna; é essa Encarnação que salvou os seres — primeiramente como possibilidades — do nada, se assim se pode dizer. Em uma escala mais reduzida — ou em um grau de realidade inferior —, a Encarnação é Buddhi, isto é, a entrada 'sacrificial' de Purusha na Existência; é o fiat lux existencial, a iluminação das trevas ou do caos. Em um sentido mais particular, que diz respeito ao homem, Buddhi salva em sua qualidade de Vishnu ou Shiva, isto é, por meio de bhakti ou jnâna; Buddhi possui tanto uma função existencial quanto uma função intelectual, e é esta última que pode ser denominada 'crística'. Cristo manifesta esses arquétipos da 'Encarnação' e da 'Redenção' histórica e diretamente por meio de sua própria pessoa; mas qualquer outra Revelação também os manifesta, cada qual à sua maneira, dependendo dos aspectos do Real e das perspectivas possíveis.
Âtmâ, ao entrar em Mâyâ como Îshvara, 'salvou' as possibilidades do nada; Îshvara salvou as potencialidades do Não-Ser e as virtualidades da não manifestação; Buddhi salva os seres — de maneira inversa e ascendente — da manifestação negativa e, em seguida, da manifestação enquanto tal; faz isso objetivamente por meio do Avatâra e subjetivamente por meio do Intelecto.
Nada disso exclui, de forma alguma, o fato de que o nascimento e a morte de Cristo tiveram o efeito de provocar uma efusão universal de graças; mas o mesmo vale para cada Revelação; Neste caso, não se trata de graças decisivas e salvíficas — que já são conferidas pela respectiva Revelação —, mas de graças vivificantes; é nesse sentido que se pode dizer que a 'Descida' (tanzîl) do Alcorão toca misteriosamente outras espiritualidades, incluindo a cristã, ou que a 'Iluminação' (Bodhi) do Buda iluminou a espiritualidade hindu. Pode-se até dizer, paradoxalmente, que Cristo vivificou o esoterismo da tradição greco-romana, embora este estivesse perecendo pelo simples fato de Seu advento.
Alguns poderiam objetar que apenas Cristo manifesta diretamente a 'Encarnação' eterna e que, consequentemente, a maneira de manifestá-la é indireta nas outras Revelações; responderíamos dizendo que apenas o Buda manifesta a 'Bodhi' eterna de maneira direta e que a 'Bodhi' aparece, portanto, de maneira indireta em Cristo, e assim por diante. Isso se deve ao fato de falarmos em 'Encarnação' por causa de Cristo e em 'Iluminação' por causa do Buda; as possíveis designações do protótipo da Revelação e da Libertação são em número indefinido. Há, na manifestação, um desdobramento de símbolos, e cada símbolo remete a um aspecto real do Modelo divino ou dos modelos universais dele derivados; mas, como aqui se trata da mesma realidade principial e primordial — a saber, a entrada do Absoluto na relatividade, qualquer que seja o grau considerado —, os modos ou símbolos não se excluem mutuamente: a entrada da Revelação Alcorânica no corpo do Profeta pode ser denominada uma 'encarnação' do Verbo, assim como a entrada do Espírito Santo — portador do Verbo — no corpo da Virgem é uma 'descida' do Livro divino; e, da mesma forma, esses dois modos estão contidos na 'Bodhi', assim como a 'Bodhi' está contida neles."
(F. Schuon)