Há experiências que somente depois de atravessadas começam a revelar sua verdadeira estrutura. Durante muito tempo, pensei que determinadas perturbações pertenciam exclusivamente à esfera psicológica, como se bastasse localizar a origem de um pensamento para compreender também o corpo que o suporta. Hoje já não consigo sustentar uma explicação tão simples. O que tenho experimentado nos últimos tempos obrigou-me a retornar ao problema do homem em sua unidade mais profunda: um ser simultaneamente corpóreo, sensível, imaginativo, afetivo, intelectivo e volitivo, inserido num mundo histórico que exerce sobre ele uma pressão contínua.
Meu caso particular tornou-se, para mim, uma espécie de laboratório involuntário.
Tenho atravessado períodos nos quais o corpo parece entrar em profunda desordem enquanto a inteligência permanece capaz de argumentar, discernir, trabalhar e organizar racionalmente aquilo que se encontra diante dela. Há momentos em que o pensamento parece correr com velocidade superior à capacidade da própria linguagem de acompanhá-lo; a fala se torna mais intensa, o organismo manifesta sinais de extrema excitação e, simultaneamente, permanece em mim uma espécie de frieza contemplativa diante das pessoas e das circunstâncias. A experiência é paradoxal: a exterioridade parece incendiada enquanto o centro deliberativo procura conservar uma ordem quase glacial.
Esse paradoxo me obrigou a reconsiderar o significado da unidade psicossomática. O homem não é um intelecto alojado provisoriamente dentro de uma máquina orgânica. Tampouco é um agregado de processos fisiológicos ao qual posteriormente atribuímos pensamentos, valores e finalidade. Existe uma unidade substancial cuja riqueza permite que suas potências sofram perturbações em ritmos diferentes. A sensibilidade pode encontrar-se profundamente agitada enquanto a inteligência conserva capacidade discursiva; o corpo pode exigir repouso enquanto a imaginação continua produzindo imagens e a memória reconduz incessantemente os mesmos conteúdos à consciência.
Foi então que compreendi melhor uma expressão de Orlando Fedeli sobre os pensamentos que retornam como um rio cársico: desaparecem da superfície, percorrem subterraneamente regiões invisíveis e reaparecem mais adiante, aparentemente separados do ponto em que haviam desaparecido. Talvez essa imagem seja uma das melhores metáforas para a interioridade contemporânea. Há pensamentos que não são resolvidos; apenas descem. Há conflitos que não encontram conclusão; apenas mudam de profundidade.
E aqui surge uma questão que ultrapassa minha experiência pessoal.
O que acontece ao homem quando sua existência inteira é submetida a um regime de aceleração permanente? Trabalho, comunicação, informação, exigências econômicas, relações familiares, conflitos políticos, exposição contínua às redes, produção intelectual, estímulos incessantes e uma cultura que parece exigir disponibilidade constante. O homem contemporâneo dispõe de instrumentos extraordinários para dominar o espaço exterior e, simultaneamente, encontra dificuldades crescentes para permanecer em silêncio diante de sua própria interioridade.
É nesse ponto que o fenômeno transumanista se torna filosoficamente interessante. O transumanismo não criou sozinho essa condição histórica, e seria intelectualmente pobre atribuir a uma corrente específica tudo aquilo que pertence a uma transformação civilizacional muito mais ampla. Entretanto, ele fornece uma formulação conceitual particularmente clara de uma tendência já presente: a ideia de que os limites constitutivos da condição humana devem ser continuamente corrigidos mediante técnica, informação, farmacologia, engenharia biológica e aperfeiçoamento artificial.
A pergunta decisiva passa a ser antropológica: que espécie de homem está sendo pressuposta quando a própria condição humana começa a ser tratada como um problema de engenharia?